Friday, February 19, 2010

Nunca, por Mais...

Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça. O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido, Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une, A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea — Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma, Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem — Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.
Álvaro de Campos, in "Poemas" Heterónimo de Fernando Pessoa

Friday, February 12, 2010

Quero uma Bomboca....


.....esponjosa ...fofa de sabor a chocolate ....

Thursday, February 11, 2010

Desejo


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte, os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas de um beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como em cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejos...
E os meus braços se estendem para ti...
(Florbela Espanca - Charneca em Flor)

Monday, January 25, 2010

Namorados do Mirante

ELES ERAM mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam às origens — a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie — tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.
Eles eram mais antigos que o silêncio...
Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'

Thursday, November 19, 2009

Pensar... pensar ...

A Degradação das Paixões Colectivas

As paixões colectivas são muito pouco numerosas e de qualidade grosseira: o meu Deus é o único Deus; a minha política é a verdade universal; o meu país tem como vocação dominar os outros. Enquanto isto, as paixões individuais são de uma diversidade infinita, de uma tissura imprevisível e sempre surpreendente. Sou pela cultura dessas mil flores diferentes. Não sou favorável a três ou quatro flores carnívoras gigantescas.
Louis Pauwels, in 'Carta Aberta às Pessoas Felizes'